O Everaldo perdeu para a economia: o Gini do Tinder e o casamento entre iguais
Um cara pagou R$ 114 no Tinder e teve zero match. O problema não é o app: é o mercado mais desigual que existe, e um paper do Fed ajuda a entender por quê.
Um cara pagou R$ 114 no Tinder, mandou 20 super likes e não deu um único match. Ele jura que o aplicativo está quebrado. O nome dele é Everaldo: 40 anos, 1,80m, fala dois idiomas, pedagogo, gestor de logística. No papel, um bom partido. Na prática, zero match.
Mas o aplicativo não está quebrado, Everaldo. Está funcionando. Perfeitamente.
O mercado mais desigual que existe
O mercado dos aplicativos de namoro é o mais concentrado que se tem notícia. Um estudo mediu os likes do Tinder com o coeficiente de Gini, o índice de desigualdade (0 é todo mundo igual, 1 é uma pessoa sozinha com tudo). Os likes deram 0,58. Só que atenção: isso é desigualdade de atratividade, de likes, não de renda.
Na fila da atratividade, os 80% de baixo dos homens disputam os 22% de baixo das mulheres. O homem mediano é curtido por 1 em cada 115. O Everaldo não é exceção. É a estatística.
Onde entra o Federal Reserve
Os bancos do Fed de Dallas e de St. Louis publicaram um paper sobre quem casa com quem. A estimativa assusta: o casamento entre iguais, o matching assortativo, explica cerca de metade do aumento da desigualdade de renda dos EUA entre 1980 e 2020. Educação com educação pesa 35%; skill com skill, 30%. Só isso somou 3 pontos no Gini americano.
E o que é um aplicativo de namoro, se não a máquina perfeita para isso? Você filtra por diploma, renda e altura antes do primeiro “oi”. Médico dá match com médica, advogado com advogada. A mobilidade entre classes, no mercado do amor, caiu.
O que o paper NÃO diz
Aqui entra a parte que a maioria das manchetes erra: o Fed não diz que o aplicativo causou essa desigualdade. O paper rejeita explicitamente o namoro online como motor (o sorting quase não mudou entre 2008 e 2021, apesar do uso em massa dos apps). O que puxa a conta é outra coisa: mais mulheres com diploma e no mercado de trabalho.
Ou seja: o app não inventou o casamento entre iguais. Ele só deu esteroide, transformou “casa com igual” em algoritmo. Metade dessa desigualdade não veio do mercado. Veio do altar, da escolha mais livre que existe: com quem você casa. E isso, nenhum imposto redistribui.